Cidadania, História

O Presidente Negro do Brasil

Neste Dia da Consciência Negra, geralmente lembrado e referenciado por Zumbi dos Palmares, muitos personagens negros foram, e são, importantes na história do Brasil. Embora muitos não percebam, não saibam ou esqueçam, o Brasil já teve seu presidente negro: Nilo Peçanha.

Nilo Procópio Peçanha, fluminense, nascido em 02 de outubro de 1867, filho de Sebastião de Sousa Peçanha (padeiro) e Joaquina Anália de Sá Freire (de uma família politicamente importante no norte do Rio de Janeiro). Advogado e jornalista, Peçanha militou pela abolição da escravatura e pela república. Foi eleito deputado da Assembléia Nacional Constituinte em 1890, deputado estadual pelo RJ entre 1891 e 1903, governador do Rio de Janeiro em 1903 (bem avaliado, diga-se), venceu as eleições para Vice-presidência da República na chapa de Afonso Pena. Assumiu a presidência após a morte de Afonso Pena, em 1909, por 17 meses. Ficou conhecido pela criação do primeiro sistema nacional de escolas técnicas. Quando chanceler no Ministério das Reações Exteriores em 1818, nomeou a soteropolitana Maria José de Castro Rebello Mendes, a primeira mulher a exercer um cargo público na velha república.

Ao longo da vida pública Nilo Peçanha foi alvo frequente de ofensas racistas veiculadas pela imprensa fluminense, que o descrevia como mulato, mestiço, e atacava a honra por meio de charges e anedotas racistas. Era conhecido na elite como “o mulato do Morro do Coco” (local onde nasceu; hoje é a cidade de Campo dos Goytacazes). O enorme preconceito fez com que Nilo buscasse negar suas origens, recorrendo até ao uso de maquiagens que escondia sua negritude em fotografias.

Nilo foi um dos primeiros a usar a propaganda eleitoral para mobilizar a opinião pública, fato constatado em sua campanha presidencial “Reação Republicana” (1922) que agregava forças de estados como Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, desafiando as oligarquias rurais de São Paulo e Minas Gerais. O mineiro Artur Bernardes venceu a eleição e Nilo Peçanha se afastou da política, pouco antes de morrer, em 1924.

Ciência, História

A Participação de Marie Curie na Primeira Guerra Mundial

É provável que Marine Curie seja a mulher mais conhecida da ciência. A polonesa naturalizada francesa realizou pesquisas pioneiras sobre a radioatividade, pelas quais ganhou não um, mas dois prêmios Nobel — ela é a primeira e única pessoa a ganhar o prêmio duas vezes. Mas o que talvez pouca gente saiba é que ela teve uma atuação importante na Primeira Guerra Mundial.

Há 100 anos, durante a guerra, enquanto as tropas alemãs chegavam a Paris, Curie teve o cuidado de pausar suas pesquisas. Ela guardou seu estoque de Rádio em um container, levou-o a Bordeaux, no sul da França, e o deixou em um cofre de um banco local. Com seu principal objeto de estudos a salvo, ela buscou outra tarefa. E, em vez de fugir do conflito, ela decidiu entrar nele. Não lutando, muito menos fabricando armas, mas salvando vidas.

Os raios-X, um tipo de radiação eletromagnética, foram descobertos em 1895, pouco antes do início da guerra, por Wilhelm Roentgen. Os médicos logo começaram a usar as máquinas para encontrar objetos estranhos nos corpos dos pacientes como, por exemplo, balas. O recurso era valioso para tratar os feridos durante uma guerra, ajudando a tornar as cirurgias mais precisas. Quando ela estourou, porém, as máquinas só eram encontradas em hospitais da cidade, muito longe dos campos de batalha onde soldados eram tratados.

A solução foi criada por Curie. Ela inventou o primeiro “carro radiologista”, um veículo adaptado com uma máquina de raios-X e equipamentos para revelar as imagens. O carro incluía uma espécie de gerador elétrico movido pelo motor que fornecia a energia necessária para os raios-X funcionarem.

O exército francês não quis financiar a invenção de Curie, a fazendo buscar apoio na União das Mulheres da França, que deu a ela o dinheiro para produzir o primeiro carro. Como um só carro não bastava, Curie foi atrás de mulheres francesas ricas que pudessem doar veículos. Conseguiu 20.

Aí faltava treinar operadores para os equipamentos, e a cientista mais uma vez buscou mulheres para o serviço, oferecendo cursos de treinamento para mulheres voluntárias, ensinados por ela e sua filha Irène, que anos depois também ganhou um prêmio Nobel por ter descoberto a radioatividade artificial.

Cerca de 150 mulheres foram treinadas por Curie e partiram para o front nos “pequenos Curie”, como os carros eram apelidados. A própria cientista participou — para isso, não só teve que aprender a dirigir,  como também princípios básicos de mecânica, entre eles trocar pneus e limpar carburadores. No fim, estima-se que o esforço de Curie e seu pequeno exército de mulheres tenha sido o responsável pelas radiografias de mais de um milhão de soldados durante a Primeira Guerra Mundial.

Embora poucas mulheres que trabalhavam nos pequenos Curie tenham sido vítimas diretas dos combates, muitas sofreram queimaduras por causa da superexposição aos raios-X. A própria Curie sabia que tamanha exposição traria riscos para a saúde, entre eles câncer. Ela contraiu anemia aplástica, uma doença no sangue. Muitos acreditam que teria sido decorrente dos anos de exposição ao Rádio, mas a própria Curie atribuía a doença à exposição aos raios-X durante a guerra. Embora nunca se saberá com certeza se eles foram, de fato, uma análise de seus restos mortais em 1995 mostrou que seu corpo não apresentava vestígios de Rádio.

Fonte: Revista Galileu

História, Internacional

Carta Recém-Descoberta de Einstein Mostra Preocupação com Nazistas Muito Antes de Eles Tomarem o Poder

Uma década antes de Adolf Hitler comandar a Alemanha, o famoso físico Albert Einstein já pressentia o perigo iminente para seu país e seu próprio bem estar, segundo uma carta recém-descoberta de um dos maiores pensadores do século passado.

Como reportado pela Associated Press, a carta previamente desconhecida foi recentemente apresentada por um colecionador anônimo. A carta escrita à mão, com data de 12 de agosto de 1922 e assinada por Albert Einstein, era direcionada à sua irmã Maja. Na próxima semana, a carta será leiloada pela Kedem Auction House, e espera-se que ela tenha um valor inicial entre US% 15 mil e US$ 20 mil.

O documento é interessante tanto pelo conteúdo como pelo momento em que foi escrita. Eistein escreveu a carta após deixar Berlim temendo por sua própria segurança. O ministro das relações exteriores da época, Walter Rathenau, que era judeu, tinha acabado de ser assassinado por três alemães anti-semitas. Após o crime, a polícia alertou Einstein de que sua vida estava em perigo, recomendou que ele parasse de dar aulas e que ele deixasse Berlim. O físico aceitou os conselhos e se mudou para o norte da cidade, possivelmente Kiel, onde ele deve ter escrito esta carta, segundo o comunicado da casa de leilões Kedem.

Carta de Einstein para sua irmã, Maja, datada de 12 de agosto de 1922

“Ninguém sabe onde estou”, escreveu ele para a irmã, “e acredito que as pessoas achem que estou desaparecido.” Como a carta deixa claro, Einstein estava preocupado com o sentimento anti-semita na Alemanha e as incertezas quanto ao futuro do país.

“Estou bem, apesar do anti-semitismo dos meus colegas alemães”, escreveu. “Estou muito recluso aqui, sem barulho e sem sentimentos desagradáveis, e estou recebendo meu dinheiro independente do Estado, então sou um homem livre.”

Einstein escreveu a carta quatro anos após a Alemanha ter sido derrotada na Primeira Guerra Mundial. O país estava uma bagunça, com diferentes facções políticas disputando o poder. Neste cenário, surgiu um militar de direita, atribuindo a culpa da derrota de 1918 a generais traidores, que foram influenciados pelo bolchevismo (o comunismo russo) e os judeus. Em 1923, um ano após Einstein ter escrito a carta, Adolf Hitler encenou sua tentativa de golpe em Munique. Hitler foi preso após mais de mil nazistas não terem conseguido tomar o poder e ele recebeu uma pena de cinco anos de reclusão por traição. No fim das contas, ele ficou apenas nove meses, e o incidente serviu para que as pessoas conhecessem o militar nacionalmente. Em 1933, o ex-soldado tomou o poder, transformando o estado em um regime fascista e anti-semita.

Um ano antes da primeira tentativa, no entanto, Einstein já temia pelo futuro de seu país. “Aqui estão se desenvolvendo tempos politicamente e economicamente obscuros”, escreveu, “então estou feliz de poder ficar longe de tudo por seis meses.”

Einstein, que sempre teve uma posição política mais alinhada à esquerda e visões de governo globalistas, disse à sua irmã que ele não estava interessado em dar aulas fora do país, mas disse que ele “teria de se juntar” a uma comissão da Liga das Nações (versão embrionária da ONU), o que “naturalmente perturba as pessoas daqui”, escreveu adicionando que “não há nada que eu possa fazer, se eu não quiser for infiel aos meus ideais.”

Reconhecendo sua crescente importância como figura pública, Einstein escreveu que ele estava “para se tornar uma espécie de pregador itinerante”, algo que ele considerava “agradável” e “necessário”. Apesar de sua previsão sombria, ele fez o que podia para acalmar a preocupação de sua irmã.

“Não se preocupe comigo”, escreveu, “eu mesmo não me preocupo, mesmo que não seja kosher [que isso esteja de acordo com as leis judaicas]; as pessoas estão perturbadas”. A carta continua: “Na Itália, parece que está menos pior, a propósito.” De fato, a situação na Itália — o país em que nasceu o fascismo — também não estava das melhores.

Em 1922, Einstein deu uma série de aulas do Japão, e teve uma longa jornada viajando pelo continente asiático. Neste período, ele foi notificado que tinha ganhado o prêmio Nobel de Física.

Após 11 anos, com os nazistas no poder, a introdução de leis repressivas resultou na remoção de judeus de cargos públicos, incluindo professores universitários. Estas leis também afetaram Einstein, com os nazistas negando a teoria da relatividade, chamando-a de “Física de judeu”. Foi o ódio irracional contra judeus e a luta contra tudo que remetia à religião que provavelmente desencorajou o Terceiro Reich de lançar um programa na escala do Projeto Manhattan [programa liderado para os EUA para desenvolver bombas atômicas]. Em vez disso, preferiram criar “super armas” como mísseis balísticos de longo alcance e aviões a jato, segundo a Atomic Heritage Foundation (organização que preserva a memória do Projeto Manhattan), que nota que embora os nazistas tivesse um programa para fazer a bomba, muitos historiadores achavam que era um esforço relapso e com pouco apoio político.

Quando Hitler ascendeu ao poder, Einstein estava em uma de suas turnês fora do país dando aula. Ele sabiamente decidiu que não voltaria mais para a Alemanha, inclusive renunciado à sua cidadania e eventualmente se mudando para os Estados Unidos. Ele aceitou uma posição no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, onde ele trabalhou até morrer em 1955.

Ciência, História

‘História em Quadrinhos’ de 2 Mil Anos é Encontrada na Jordânia

Um túmulo localizado no atual território da Jordânia, no Oriente Médio, chamou a atenção de arqueólogos: nele, há 260 imagens ordenadas de forma a contar a história da formação da cidade das Capitolias, e provavelmente de seu fundador ali enterrado, com formas arcaicas de balõezinhos de fala que representam uma história em quadrinhos de 2 mil anos de idade.

Duas câmaras funerárias e um grande sarcófago de basalto foram descobertos por uma escavadeira mecânica que trabalhava na encosta de uma colina, em frente a uma escola da vila de Bayt Ras, no norte do país, em 2016.

O túmulo está localizado no local da antiga cidade das Capitolias, que foi fundada no final do primeiro século e fazia parte da Decápolis, uma região que reunia cidades com influências das culturas grega e romana, entre a Jordânia e a Síria.

Em outros túmulos da Decápole, a mitologia também está representada, mas as falas representadas fornecem informações preciosas para os arqueólogos.

“As inscrições são realmente semelhantes às bolhas de fala nos quadrinhos, porque descrevem as atividades dos personagens (“Estou cortando pedra”, “Ai de mim! Estou morto!”), o que é extraordinário “, conta o pesquisador francês Jean-Baptiste Yon, do consórcio internacional de especialistas criado pelo Departamento de Antiguidades da Jordânia.

A história começa com divindades provando ofertas recebidas por humanos, e segue com homens trabalhando a terra, colhendo frutos, até que recebem ajuda dos deuses para derrubar árvores, um assunto extremamente raro em imagens greco-romanas.

O conto segue em outro painel, com representações de arquitetos — ou capatazes — vigiando o trabalho pesado de pedreiros, cortadores de pedra e carregadores, muitos vítimas de acidentes. “Ai de mim! Estou morto!”, seguido por um padre que oferece sacrifício para os deuses guardiões da cidade.

Finalmente, expostas no teto e nas paredes dos dois lados da entrada, há uma composição mais clássica evocando o Nilo e o mundo marinho, em que ninfas conduzem animais aquáticos flanqueados por cupidos, enquanto um medalhão central combina signos do zodíaco e planetas ao redor.

“De acordo com a nossa interpretação, há uma boa chance de que a figura enterrada na tumba seja a pessoa que se representou enquanto oficiava na cena do sacrifício da pintura central, e que consequentemente foi o fundador da cidade “, comenta outro pesquisador, Pierre-Louis Gatier. “Seu nome ainda não foi identificado, embora possa estar gravado na porta, que ainda não foi limpa.”

Essas, no entanto, não podem ser chamados de quadrinhos mais antigos do mundo, os antigos egípcios também combinaram ilustrações e textos para contar uma história.

Fonte: Revista Galileu

História, Internacional, Política

Fremdschämen, a Constrangedora ‘Aula’ Sobre Nazismo dos Brasileiros aos Alemães

Uma palavra sintetiza a aula sobre nazismo que um grupo de brasileiros tentou dar aos próprios alemães na Internet: fremdschämen (vergonha alheia). O que era para ser um vídeo sobre como se ensina a história do nazismo, publicado no Facebook pela Embaixada da Alemanha em Brasília e pelo Consulado Geral no Recife, se tornou um campo de guerra nas redes sociais.

De um lado, brasileiros que não acreditam no holocausto e garantem que o nazismo era uma ideologia de esquerda, contestavam a história divulgada pelo Governo alemão. Do outro, brasileiros envergonhados pediam desculpas pelos comentários exaltados. E no meio, a embaixada alemã tenta equilibrar os ânimos e corrigir os néscios: “O holocausto é um fato histórico, com provas e testemunhas que podem ser encontradas em muitos lugares da Europa”, publicou em resposta a um internauta que afirmou que  o “holofraude está com os dias contados”.

No vídeo institucional, a Alemanha explica que desde cedo as crianças são ensinadas confrontar os horrores do holocausto, como parte do pensamento de conhecer e preservar a história para não repeti-la. No país é crime negar o holocausto, exibir símbolos nazistas, fazer a saudação “Heil Hitler”. O vídeo deixa claro que o nazismo é uma ideologia da extrema direita. “Devemos nos opor aos extremistas de direita, não devemos ignorar, temos que mostrar nossa cara contra neonazistas e antissemitas”, afirma no vídeo Heiko Mass, ministro das Relações Exteriores.

Muitos internautas contestaram o ministro: “Extremistas de direita? O partido de Hitler não se chamava Partido dos Trabalhadores Socialistas? Onde tem extrema direita?”, perguntou um internauta, em relação ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), que ficou ativo no país entre 1920 e 1945. O partido de Hitler misturava uma cultura paramilitar racista, populista, antissemita e anti-marxista, algo como “contra tudo o que está aí” e ” ou pelos verdadeiros alemães “de bem”.

Houve quem tentasse explicar onde estava o erro da embaixada: “Não é só pelo nome do partido. É uma concentração de poder no Estado. A esquerda (comunismo/socialismo) acredita em poder centralizado no governo para a construção de uma sociedade melhor. A direita acredita na descentralização desse poder, por isso advoga um poder maior ao indivíduo e não ao coletivo (…)”. Isto é, como Hitler centralizava o poder, logo, ele não poderia ser de direita, segundo esse internauta.

Enquanto alguns tentavam ver o lado positivo da iniciativa e marcavam amigos para tentar provar que o nazismo é, sim, de direita – “(…) se o Consulado alemão explicando que o nazismo é de extrema direita não te convencer, não sei o que mais poderá”, escreveu um internauta. Outros até ameaçaram a embaixada: “[Vocês] perderam uma enorme chance de ficar de boca fechada. Mas não se preocupem. Estou compartilhando este post na Alemanha. Vamos ver o que irão dizer!”

Damaris Jenner, responsável para assuntos de imprensa na embaixada, explica que a ideia era falar sobre como se ensina história na Alemanha. “Na semana em que pensamos em fazer esse vídeo, aconteceram as manifestações em Chemnitz e vários jornais brasileiros noticiaram”, diz ela. Os protestos foram realizados por militantes da extrema direita desde o final de agosto contra a morte de um alemão, supostamente esfaqueado por dois imigrantes, e que terminaram em atos de violência.

“Achamos que seria interessante ligar esses dois assuntos para mostrar essa discussão na Alemanha”, afirma Jenner. Mas a reação dos internautas surpreendeu. “Não imaginávamos que repercutiria dessa forma”, diz. “Nosso vídeos costumam ser bem assistidos, mas esse foi excepcional”. Até o fechamento desta reportagem, o vídeo tinha mais de 630.000 visualizações na página da embaixada. Jenner diz que, além da audiência alta, fez diferença o engajamento dos usuários. “Geralmente tem menos debate”, diz. Ela afirma que alguns comentários foram respondidos “de forma cordial” pela própria embaixada ou pelos consulados que replicaram o vídeo, mas que em muitos casos os próprios usuários responderam uns aos outros.

Apesar da polêmica e de alguns comentários pouco cordiais de usuários, a embaixada não pretende retirar do ar a publicação. “Isso é um assunto importante em muitos países atualmente”, diz Jenner, sobre a temática levantada pelo vídeo. “Mas as reações daqui são devido a situação política do Brasil”, afirma. Desde as jornadas de junho de 2013, o país vive um clima acirrado de polarização política. Grupos alinhados ao pensamento da direita se uniram em torno do impeachment da petista Dilma Rousseff. Enquanto grupos de esquerda acusavam os adversários de golpe. Neste cenário, a defesa falaciosa de que o nazismo seria um movimento de esquerda se tornou comum entre militantes da direita nas redes sociais.

Na escola, os alemães começam a aprender sobre o nazismo quando têm  entre 13 anos e 15 anos. E no Brasil também. “Os alunos da rede pública estudam este tema em História em dois momentos do ciclo básico: no nono ano do ciclo fundamental e no terceiro ano do ensino médio”, afirma o professor de história da rede pública de São Paulo Danilo Oliveira. A diferença é que, enquanto na Alemanha a história do Terceiro Reich está nas ruas, no turismo e nas memórias das famílias, no Brasil, as lembranças do passado de influência nazista vão sendo apagadas pelo desinteresse sobre o tema.

É o que aconteceu com a Fazenda Cruzeiro do Sul, em Paranapanema, interior do Estado, onde funcionou na década de 1930 uma colônia nazista. A história da fazenda ganhou destaque a partir do trabalho do historiador Sydney Aguilar que descobriu como 50 meninos órfãos do Rio de Janeiro foram escravizados por dez anos a ponto de terem sido privados até mesmo de seu nome, eles só ganhavam números. Essa história foi contada no filme Menino 23, lançado em 2016. O prédio da sede, construído com tijolos com o desenho da suástica, já não existe mais. O proprietário começou a demolir a estrutura em 2012, e terminou em 2016. E só restou à Procuradoria Geral do Estado processar o dono.

O professor Oliveira admite que o nível de informação dos brasileiros sobre grandes temas da humanidade, como o nazismo, pode piorar nos próximos anos. Isso porque a diferença entre as ideologias de direita e esquerda são mais aprofundadas nas disciplinas de história e sociologia no ensino médio, que deixarão de ser obrigatórias se a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para esta etapa de estudos for aprovada. Por enquanto, como disse um internauta, “brasileiros questionando a embaixada alemã sobre nazismo é 8 a 1 para Alemanha”. Mas pelo andar das coisas, esse placar ainda tem potencial para crescer muito.

Fonte: El País

Curiosidade, História, Internacional, Mobilidade

Como os Nazistas Roubaram a Ideia da Autobahn

Em 6 de agosto de 1932, foi inaugurada a primeira autoestrada da Alemanha, seis meses antes de Hitler chegar ao poder. Mas a propaganda vendeu como sua a ideia – um mito que ficou entre gerações de alemães. Com força, Adolf Hitler afunda a pá no monte de areia, cercado por soldados. Um deles segura uma câmera para fotografar o ditador e documentar a cerimônia de inauguração das obras em mais um trecho de estrada. Essa era uma imagem comum, encontrada em todo o país durante o Terceiro Reich. Mais frequentemente ainda nos locais onde pequenos trechos da “reichsautobahn” eram construídos.

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Toda aquela encenação tinha um só objetivo: as cerimônias inaugurais de obras ou de trechos das “autobahn” eram encenadas e celebradas com zelo especial, para que chegassem a todos os alemães, como símbolo do progresso da Alemanha nazista.

Era uma estranha transformação, pois apenas alguns anos antes, amplos setores do NSDAP, partido nazista de Hitler, sabotavam, juntamente com o Partido Comunista, a construção das “ruas só para carros”, como eram conhecidas no princípio as largas rodovias com calçamento de lajes de concreto. Os nazistas acusavam o projeto de “servir apenas a ricos aristocratas, a capitalistas judeus e aos seus interesses”, e ficavam longe das negociações políticas sobre o financiamento das rodovias. Somente quando Hitler chegou ao poder, em 1933, os nazistas descobriram a autobahn para seus próprios interesses. Até 1929, a construção de autoestradas na Alemanha era impedida pela crise econômica e a falta de capital. A Alemanha sofria sob as consequências da hiperinflação, desemprego em massa e dos pagamentos de indenizações pela Primeira Guerra Mundial.

Apenas o então prefeito de Colônia, Konrad Adenauer (que mais tarde se tornaria o primeiro chanceler do pós-guerra), foi bem-sucedido, em 6 de agosto de 1932, na construção e financiamento da primeira autoestrada sem cruzamento entre Colônia e Bonn, a atual A 555. O percurso tinha, então, 20 quilômetros, com velocidade máxima permitida de 120 quilômetros por hora, numa época em que a maioria dos carros só conseguia atingir metade disso. A área em torno de Colônia era tida na época como de maior trânsito do país.

Apenas seis meses após sua abertura, os nazistas, já no poder, rebaixaram a categoria da rodovia para “estrada”, com objetivo de, mais tarde, poder reclamar para si o título de construtor da primeira autobahn. Mas já em 1909, industriais fãs de automóveis e cidadãos influentes se uniram para a construção de uma via por onde os carros pudessem trafegar livremente, sem poeira nem sujeira e sem serem atrapalhados por pedestres ou carroças puxadas a cavalo.

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Em 1913, começaram as obras da “Automobil-Verkehrs und Übungsstrasse” (via de trânsito e testes de automóveis), por cuja sigla, Avus, ela é até hoje conhecida. Em vez dos previstos 17 quilômetros, o dinheiro só foi suficiente para construir 10 quilômetros de estrada nos arredores de Berlim. A Primeira Guerra Mundial fez com que os trabalhos fossem interrompidos, e depois de 1921 o percurso foi usado principalmente para corridas e testes de carros esportivos.

Uma associação fundada em 1926 começou a se empenhar na construção de uma rede de estradas por toda a Alemanha, de Hamburgo, passando por Frankfurt e indo até Basileia, na Suíça. A iniciativa “HaFraBa” era rejeitada por nazistas, mas após Hitler chegar ao poder, os planos da HaFraBa foram em parte incorporados pelo governo, e o nome da associação foi mudado para Sociedade para Preparo das Autoestradas do Reich

Segundo historiadores, Adolf Hitler apenas aproveitou para aderir a um movimento mundial em favor da mobilidade que começava a surgir na época. Ele reconheceu, no entanto, a oportunidade de seduzir uma nação e garantir seu próprio poder através de uma empreitada que parecia sem sentido para a época. Porque uma coisa era clara: muito poucos alemães tinham dinheiro para comprar um carro e usar as novas estradas. A propaganda nazista, no entanto, prometia a mobilidade do povo alemão, não apenas dos ricos, mas da população em geral. Assim nascia a ideia do Volkswagen, o “carro do povo”. Além disso, a autoestrada deveria, por pressão de Hitler, disponibilizar uma linha expressa de ônibus em seus primeiros trechos.

A cada ano, mil quilômetros de estradas deveriam ser concluídos, segundo a ordem de Hitler. Em 1934, ele falou sobre o início de uma “batalha de trabalho”, anunciando, assim, reduzir o elevado número de desempregados. Pelo menos 600 mil novos postos de trabalho deveriam ser criados pela construção das estradas. Nos períodos mais intensos, cerca de 120 mil homens foram postos em ação com pás e picaretas. A construção de rodovias foi marcada por doenças, mortes, fome e miséria. Ocorreram greves. Os líderes das greves eram enviados para campos de concentração. O povo, entretanto, não ficou sabendo de nada disso.

No decorrer dos anos, cada vez mais pessoas encontraram emprego na indústria bélica, que vivia um período de grande crescimento. Foi ela que reduziu o desemprego, não a construção de autoestradas. Durante os anos de guerra, cada vez mais prisioneiros e trabalhadores forçados judeus foram empregados na construção das rodovias. Os homens que originalmente trabalhavam na construção de estradas foram mandados para a guerra. Em 1941, somente cerca de 3.800 quilômetros de autoestradas foram concluídos. Entre 1941 e 1942, os trabalhos de construção chegaram a ser quase inteiramente suspensos. A partir do segundo semestre de 1943, as autoestradas foram liberadas para ciclistas, devido ao baixo tráfego de veículos motorizados.

A propaganda nazista manteve o mito autobahn por anos a fio, e com sucesso. Filmes e fotos mostram grupos de trabalhadores em ação em autoestradas, numa época em que as obras há muito tinham sido suspensas. Essas imagens ficaram na memória de gerações de alemães. Os nazistas tinham alcançado seu objetivo.

Fonte: Deutsche Welle

História, Religião

A Missionária Sueca da Assembléia de Deus Que Foi Perseguida no Brasil, Internada em Hospício e ‘Esquecida’ pela História

O texto é longo e vale a pena ler, especialmente se você é da Assembléia de Deus, se você quer saber sobre a história de uma mulher que quebrou algumas barreiras dentro de um espaço, até então, dominado por homens. O texto é da BBC Brasil:

Frida Maria Strandberg Vingren morreu aos 49 anos, no dia 30 de setembro de 1940, na Suécia, nos braços da filha. Abatida, ela pesava 23 quilos.

Frida

No decorrer dos cinco anos anteriores, entre idas e vindas em um hospital psiquiátrico de Estocolmo, a missionária sueca perdera quase 40 quilos. Ela fora internada pela primeira vez no dia 12 de janeiro de 1935, levada da estação central da cidade, quando tentava tomar um trem que a levaria para Portugal – de onde, acredita-se, pegaria um navio de volta para o Brasil.

Casada com o sueco que fundou, em Belém do Pará, a Assembleia de Deus, Frida se tornou uma das mais importantes lideranças da igreja no decorrer dos 15 anos em que esteve no Brasil. Ajudou a construir o ministério no Rio de Janeiro, comandava um jornal e pregava em praça pública. Suas atribuições – muitas até então reservadas apenas aos homens –, entretanto, desagradaram pastores brasileiros e suecos, fizeram com que ela fosse perseguida e pressionada a voltar a seu país de origem, onde teve um fim trágico.

A história da missionária passou décadas esquecida e, nos últimos anos, vem sendo resgatada tanto na Suécia quanto no Brasil. Foi tema de livro, de tese de doutorado e voltou a alimentar o debate – atual e ainda polêmico – sobre o papel da mulher na Assembleia de Deus, a maior religião pentecostal do país, com 12 milhões de fiéis.

Belém do Pará, onde tudo começou

Frida embarcou para Belém em 1917, aos 26 anos, enviada pela Igreja Filadélfia, uma denominação pentecostal baseada em Estocolmo.

Veio para juntar-se a Gunnar Vingren, que, sete anos antes, havia fundado a Assembleia de Deus no Brasil. Eles haviam se conhecido naquele mesmo ano, quando o missionário estava na Suécia para arrecadar fundos e visitar a família. “Ele conta a ela sobre a missão e ela se apaixona pela ideia do Brasil”, diz Valéria Vilhena, pesquisadora da Universidade Metodista, que baseou o doutorado na vida da missionária e que lança neste ano um livro sobre sua história.

Três meses depois de desembarcar no Norte do país, ela se casa com Gunnar, em uma cerimônia realizada pelo pastor sueco Samuel Nyström, que, ironicamente, se tornaria um de seus maiores antagonistas.

Gunnar Frida e Filhos

No início, Frida restringe seu trabalho aos serviços sociais da igreja, tradicionalmente entregues às mulheres. Cuidar dos filhos, zelar pelos órfãos, visitar os idosos e os doentes. A jovem ia com frequência aos centros afastados que isolavam pacientes com hanseníase do restante da população – os chamados leprosários, que surgiram no Brasil naquela época –, diz Kajsa Norell, jornalista sueca autora de Halleljua Brasilien!, lançado em 2011, que conta a história do surgimento da Assembleia de Deus no Brasil.

O marido, missionário “por vocação”, na definição de Vilhena, estava constantemente viajando, buscando expandir o trabalho da igreja. A saúde frágil fazia com que ele quase sempre voltasse para casa doente. As particularidades da região que escolheu para pregar não ajudavam: pegou malária diversas vezes. “Ele ficava muito tempo de cama”, diz o sociólogo Gedeon Freire de Alencar, autor de Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus, 1911-2011 e um dos primeiros a redescobrir a história de Frida, no início dos anos 2000.

Com o tempo, a missionária assume cada vez mais as atribuições de Gunnar em Belém. Talentosa, ela começa a traduzir os hinos da igreja sueca para o português. Canta, toca e começa a pregar. “Ela transforma os boletins entediantes dos missionários (publicados nos jornais da igreja sueca) em histórias incríveis. Um dos textos conta sobre a prisão que ela visitava toda semana em Belém, que mantinha 200 garotos entre cinco e 20 anos de idade, alguns que estavam ali simplesmente por não terem pai”, conta Norell, que passou meses entre os arquivos da Igreja Filadélfia, mantidos em um castelo nas redondezas de Estocolmo.

Frida na escola dominical

Frida passa então a bater de frente com o pastor Samuel Nyström – à frente do jornal da Assembleia de Deus, batizado de Boa Semente –, que era radicalmente contra que as mulheres pudessem pregar. Em sua correspondência com a liderança da igreja na Suécia, Nyström passa a reclamar da missionária em toda oportunidade que lhe aparece. “Nas cartas que escrevia a Lewi Pethrus (uma das maiores figuras do pentecostalismo sueco) o tom é de fofoca mesmo: ‘Hoje ela fez isso e isso, ontem foi isso e isso'”, afirma Norell.

Em 1924, com quatro filhos, o casal Frida e Gunnar decide então se mudar para o Rio de Janeiro para fundar um novo ministério. “Eles decidem sair de Belém porque a tensão já era insustentável”, ressalta Vilhena.

O ministério feminino no Rio de Janeiro

Na capital carioca, Frida expande seu trabalho. Torna-se a primeira mulher da religião a dirigir uma escola bíblica dominical, fundada em uma prisão, e inicia o jornal Som Alegre, através do qual passa a defender o ministério feminino. Seus textos citam com frequência trechos da Bíblia que, em sua visão, deixavam claro que as mulheres poderiam pregar, ensinar ou doutrinar.

O comportamento desagrada também pastores brasileiros, incluindo Paulo Leivas Macalão, gaúcho, de família abastada e com tradição militar, que estava à frente da Assembleia de Deus Madureira, hoje uma das maiores do país. “Parte dos pastores da igreja no Rio de Janeiro já não queria se submeter a sueco pobre e semiletrado. A mulher, muito pior”, acrescenta Alencar.

Ele lembra que, no início do século 20, a Suécia era um país pobre, onde a igreja luterana era a religião oficial. Perseguidos, os pentecostais migraram especialmente para os Estados Unidos. Os que vieram para o Brasil escolheram Belém porque, na época, graças à riqueza gerada pela borracha, era uma das cidades mais ricas do país.

A convenção de 1930 e o ‘enquadramento’

As tensões culminam na convocação da primeira grande convenção da Assembleia de Deus, realizada no dia 12 de julho de 1930, em Natal (RN).

“O motivo da convocação foi Frida”, destaca Isael Araújo, pastor da Assembleia de Deus em Niterói e autor da biografia Frida Vingren, lançada em 2014.

No encontro, os pastores definiram as atividades que poderiam ser desempenhadas pelas mulheres na igreja. Elas não chegaram a ser expressamente proibidas, por exemplo, de pregar – mas a atribuição não estava na lista do que as religiosas “tão somente” poderiam fazer. “Foi um enquadramento”, acrescenta Araújo, que foi chefe do Centro de Estudos do Movimento Pentecostal (CEMP) da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD). Em todo o processo, Gunnar ficou ao lado da esposa e defendeu o ministério feminino, mas foi voto vencido.

Nos meses que se seguiram, a situação ficou pior. Frida usou seu espaço no jornal da Assembleia para desafiar as decisões tomadas na convenção e para pedir que as mulheres não recuassem. “Um dos textos dessa época tinha como título ‘Deus nos convoca para a guerra’. Era uma demonstração direta de insubordinação”, diz Alencar.

Frida Jornais

O clima de conflito fica claro nas cartas trocadas entre os missionários e em outros documentos da época: “Eles (os missionários brasileiros) precisam de homens. De preferência, com as mesmas qualidades de liderança como a de Frida e Adina (Nelson, esposa de Otto Nelson), mas do sexo masculino”, escreve o pastor A.P. Franklin no jornal da igreja na Suécia, chamado The Harald.

A situação escalou depois de um suposto caso de adultério de Frida com um brasileiro. Apesar de não haver uma confirmação documental do romance que a missionária teve com o rapaz, bem mais novo que ela, os indícios levam a crer que isso de fato aconteceu.

“Eu realmente acredito que seja verdade”, diz Norell, que entrevistou um dos filhos de Frida e algumas de suas netas enquanto escrevia o livro e que identificou o assunto em cartas enviadas à Suécia “por pessoas que não eram hostis a ela”.

O pastor que era uma ‘mistura de Edir Macedo e Silas Malafaia’

A situação fica insuportável no Brasil e, em de 1932, o casal, que na época tinha seis filhos, decide retornar à Suécia. Antes de partir, contudo, eles perdem a filha mais nova – e Gunnar morre pouco tempo depois de chegar à Europa. Frida quer retomar a vida de missionária, mas a liderança da igreja no Brasil não aprova seu retorno. Na Suécia, suas aspirações também são tolhidas por Lewi Pethrus, um dos maiores líderes da igreja pentecostal no país.

Inimigo poderoso, ele era “mistura de Edir Macedo com Silas Malafaia”, define o pastor Araujo. A comparação com o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, denominação neopentecostal, e com o pastor do ministério Vitória em Cristo, ligado à Assembleia de Deus, dá conta do espírito “empreendedor” de Pethrus e de sua postura muitas vezes polêmica.

Em 1964, Pethrus fundaria o partido democrata-cristão sueco – o Kristdemokraterna (KD) –, de centro-direita. Diante dos reiterados pedidos de Frida, o líder afirma que seu trabalho no Brasil havia prejudicado a missão e dá-lhe um não definitivo. Ela levanta então recursos por conta própria e decide ir para Portugal.

O hospício e o esquecimento

Detida na estação de trem de Estocolmo, ela já sai com uma camisa de força em direção ao hospital psiquiátrico. A igreja lhe tira a guarda dos filhos e doa todos os seus pertences. Para Kajsa Norell, é difícil dizer se, naquele momento, Frida realmente tinha algum tipo de doença psiquiátrica. “Ela estava esgotada, física e mentalmente, já tinha tido malária no Brasil e, provavelmente, sofria de alguma doença na tireoide”.

Em nenhum dos prontuários médicos, contudo, há o diagnóstico de que ela sofria de algum distúrbio mental.

Durante sua pesquisa, a autora percebeu “alguma coisa estranha” nos olhos de Frida. Quanto mais recente a fotografia, mais saltados eles pareciam. A partir dos registros médicos da missionária, especialistas concluíram que ela tinha possivelmente hipertireoidismo – doença que provavelmente a matou.

Para o pastor Araújo, o conflito direto com as maiores lideranças da igreja está entre as razões para o ‘esquecimento’ de Frida. Ele nega que a biografia, publicada pela editora da Assembleia de Deus, seja uma ação de reparação à missionária. “Gunnar Vingren, o pioneiro da igreja, já tinha uma biografia. A esposa, ainda não. Não quis fazer uma biografia crítica, porque não sou sociólogo”, justifica.

Ele diz ter se deparado com a história quando trabalhava no Dicionário do Movimento Pentecostal, em 2007, e viajou à Suécia em 2008. Os diários de Gunnar e parte do acervo que estava com a família, incluindo fotos, hoje se encontram no Brasil. Na Suécia, a Igreja Filadélfia foi confrontada com a trajetória de Frida quando o livro de Kajsa Norell foi lançado. “Aquilo era uma novidade completa para nós”, diz Gunnar Swahn, que foi secretário de missões da Igreja Filadélfia até recentemente, quando se aposentou. “Foi horrível o que fizeram com ela. Muita gente ficou chocada com a forma como ela foi tratada pelas antigas lideranças”.

O livro, ele acrescenta, se soma a outras obras publicadas nos últimos anos na Suécia que revelam traços e atitudes polêmicas de Lewi Pethrus, em relação ao qual a igreja tem hoje uma postura crítica. “Digamos que ele não é idolatrado pelos fiéis, apesar de ainda ser uma figura importante”. Questionado sobre as mulheres, se elas hoje podem ser pastoras, ele se apressa: “Ah, sim! Nós gostamos de pensar que somos uma igreja progressista.”

A BBC News Brasil não teve retorno da Assembleia de Deus Belém sobre o pedido de entrevista e não conseguiu contato com a Assembleia de Deus Madureira, no Rio de Janeiro.

A Assembléia de Deus e as mulheres

As mulheres têm ganhado cada vez mais espaço dentro das Assembleias de Deus no Brasil, diz Alencar. Essa tendência, contudo, é bastante assimétrica nas diferentes regiões do país, justamente pelas características da religião.

Ao contrário da Igreja Católica, bastante hierarquizada, sua estrutura é congregacional. “É como se fosse uma democracia direta”, compara o sociólogo. Cada congregação define suas liturgias, “tem lugar que aceita mulher, tem lugar que não aceita”.

Em 2005, ele exemplifica, o pastor Manoel Ferreira – filiado ao PSC e presidente da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil – Ministério de Madureira (Conamad) –, ao consagrar Jairo Manhães como pastor, acabou consagrando, sem aviso prévio, sua esposa, Cassiane – “cantora gospel de sucesso e milionária”.

Depois disso, afirma Alencar, todas as esposas de pastores do ministério de Madureira também foram ordenadas como pastoras. “Já a minha igreja, a Betesda, consagra pastoras desde 1994”, ele acrescenta.