Ciência

Cirurgia Ocular: A Terapia Genética Que Pode Barrar “Causa Mais Comum de Cegueira”

Os cirurgiões injetaram um gene sintético na parte de trás do olho de Janet Osborne em uma tentativa de impedir a morte de mais células.

É o primeiro tratamento a atacar a causa genética subjacente da degeneração macular relacionada à idade (DMRI).

“Tenho dificuldade de reconhecer rostos com meu olho esquerdo porque minha visão central está desfocada. Se esse tratamento for capaz de impedir que isso piore, vai ser incrível”, diz Osborne à BBC.

O tratamento foi realizado com anestesia local no mês passado, no Oxford Eye Hospital, na cidade homônima, no Reino Unido, pelo médico Robert MacLaren, professor de oftalmologia da Universidade de Oxford.

“Um tratamento genético precoce para preservar a visão em pacientes que, sem intervenção, perderiam a visão seria um tremendo avanço na oftalmologia e certamente algo que espero para um futuro próximo”, afirmou MacLaren.

Osborne, de 80 anos, é a primeira de 10 pacientes com DMRI a participar de um tratamento experimental de terapia genética, desenvolvido pela Gyroscope Therapeutics, com financiamento da Syncona, fundo de investimentos da Wellcome Trust.

O que é DMRI?

A mácula é a parte da retina responsável pela visão central e de pequenos detalhes.

Na degeneração macular relacionada à idade, as células da retina morrem e não são renovadas.

O risco de desenvolver DMRI aumenta com o passar dos anos.

A maioria dos pacientes, incluindo todos os participantes do tratamento experimental, apresenta o que é conhecido como DMRI seca, em que o declínio na visão é gradual e pode levar muitos anos.

Já a DMRI úmida pode se instalar subitamente e levar à perda rápida da visão, mas pode ser tratada se for diagnosticada logo.

Como a terapia genética funciona?

À medida que algumas pessoas envelhecem, os genes responsáveis pelas defesas naturais do olho começam a apresentar anomalias e a destruir as células da mácula, levando à perda da visão.

Uma injeção é aplicada na parte de trás dos olhos, introduzindo um vírus inofensivo que contém um gene sintético.

O vírus infecta as células da retina e libera o gene.

Isso permite que o olho produza uma proteína destinada a impedir que as células morram e a manter, assim, a mácula saudável.

Em estágio inicial, no Oxford Eye Hospital, o teste foi desenvolvido principalmente para verificar a segurança do procedimento e está sendo realizado em pacientes que já perderam uma parte da visão.

Se o tratamento for bem sucedido, a meta seria tratar os pacientes antes que tenham perdido qualquer percentual da visão, em uma tentativa de deter a DMRI no início.

Isso teria um impacto grande na qualidade de vida dos pacientes.

Expectativa para os resultados

É muito cedo para saber se a perda de visão no olho esquerdo de Osborne foi interrompida, mas todos que participam do teste terão a visão monitorada.

“Ainda gosto de praticar jardinagem com meu marido, Nick, que cultiva muitas verduras e legumes”, conta Osborne.

“Se eu puder continuar descascando e cortando os legumes, mantendo meu atual nível de independência, sem dúvida vai ser maravilhoso.”

Já existe um tratamento de terapia genética bem-sucedido para outro distúrbio ocular raro.

Em 2016, a mesma equipe de Oxford mostrou que uma única injeção poderia melhorar a visão de pacientes com coroideremia, que, do contrário, ficariam cegos.

E, no ano passado, médicos do Moorfields Eye Hospital, em Londres, recuperaram a visão de dois pacientes com DMRI implantando um curativo de células-tronco sobre a área danificada no fundo do olho.

A expectativa é que a terapia com células-tronco possa ajudar muitas pessoas que já perderam a visão.

Mas o tratamento experimental de Oxford é diferente porque visa a combater a causa genética subjacente da DMRI e pode ser eficaz em deter a doença antes que as pessoas fiquem cegas.

Fonte: BBC

Ciência, Medicina

O Outro Lado da Ayahuasca: Equipes de Natal e Ribeirão Preto Avaliam Ação Antidepressiva de Chá

De tempos em tempos, surge uma onda de otimismo, quase sempre frustrada, acerca da possibilidade de uso de compostos psicodélicos para tratar problemas de saúde mental. Extraída de plantas ou sintetizada em laboratório, essas substâncias costumam alterar a percepção da realidade e as emoções e causar uma sensação de bem-estar, além de poderem provocar episódios de ansiedade com menor frequência. A disseminação de seu uso recreativo nos anos 1960 pelos movimentos de contracultura levou as autoridades sanitárias a proibir o acesso a esses compostos em muitos países – alguns permitem o uso restrito em pesquisas. A onda atual de entusiasmo ganhou força nos últimos anos com a publicação de resultados promissores de estudos mais bem planejados e realizados com mais rigor, ainda que com poucos participantes, para avaliar a segurança e a eficácia dos psicodélicos – alguns naturais, como a psilocibina e a ayahuasca; outros sintéticos, como a cetamina (ver reportagem).

“A psiquiatria necessita de novos medicamentos porque muitos dos que existem hoje não apresentam boa eficácia contra certos casos de depressão”, afirma o psiquiatra Jaime Hallak. Ele é professor na Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto (USP-RP) e coordena uma rede de pesquisadores que investiga o potencial terapêutico dos psicodélicos. Um dos compostos avaliados pelo grupo é a ayahuasca, produzida a partir do cozimento de folhas do arbusto Psychotria viridis, conhecido como chacrona, e da casca do cipó Banisteriopsis caapi, também chamado de mariri. Usada por povos indígenas da Amazônia em rituais de cura espiritual, a ayahuasca foi incorporada a partir dos anos 1930 em cerimônias de seitas religiosas criadas por seringueiros – Santo Daime e União do Vegetal, no Acre, e Barquinha, em Rondônia. Nos anos 1980 passou a ser consumida em outras partes do mundo. No Brasil, seu uso é considerado legal desde 1987 para fins ritualísticos. Mais recentemente, começou-se a analisar a potencial ação antidepressiva dessa bebida, embora seu consumo ainda esteja longe de poder ser indicado como tratamento para depressão.

Em um dos seus trabalhos mais recentes, os grupos de Hallak e do neurocientista Dráulio Barros de Araújo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), avaliaram a ação antidepressiva de uma única dose de ayahuasca administrada a pacientes com depressão severa que não respondiam aos medicamentos usuais. No experimento, realizado no Hospital Universitário Onofre Lopes, em Natal, 29 pessoas foram aleatoriamente indicadas para receber o chá ou uma bebida sem ação farmacológica (placebo), formulada para ter sabor e aspecto de ayahuasca. Antes, durante e por uma semana após o tratamento, os pesquisadores realizaram uma série de avaliações psicológicas e fisiológicas nos participantes (14 tomaram ayahuasca e 15 placebo), além de imagens de ressonância nuclear magnética para avaliar alterações no funcionamento do cérebro. Durante o experimento, nem os pesquisadores nem os participantes sabiam quem havia recebido ayahuasca ou placebo – o chamado duplo-cego.

Os dois grupos apresentaram redução no quadro depressivo após o experimento, com melhora significativamente maior entre os que tomaram ayahuasca. A diferença se tornou mais importante no sétimo dia após o tratamento: cerca de 60% das pessoas que receberam a preparação com as folhas e o cipó haviam apresentado uma redução superior a 50% nos sinais de depressão, contra 27% no grupo placebo. Metade dos participantes do primeiro grupo estava completamente livre dos sintomas, ante 10% no segundo, de acordo com artigo publicado on-line em junho de 2018 na revista Psychological Medicine. “Até onde sabemos, esse é o primeiro ensaio clínico controlado com placebo já realizado com a ayahuasca”, conta Araújo, que já provou a bebida algumas vezes.Araújo começou se interessar em estudar a ayahuasca por volta de 2005, quando fazia a transição de sua área de formação, a física, para a neurociência. Com Hallak, realizou um experimento, descrito em 2012 na revista Human Brain Mapping. Eles convidaram 12 pessoas habituadas a consumir ayahuasca a fazer imagens do cérebro em funcionamento sob efeito da bebida. Os participantes observavam algumas imagens e depois fechavam os olhos. Sob efeito da ayahuasca, a região do cérebro responsável pelo processamento visual permaneceu ativa mesmo quando estavam de olhos fechados. Talvez isso explique as visões que algumas pessoas têm quando tomam o chá. De olhos fechados, o padrão esperado seria que essa área cerebral estivesse menos ativa.

Outros dois estudos com ressonância magnética ajudam a explicar por que os usuários frequentes de ayahuasca parecem mais autoconscientes nos testes realizados. Em um deles, a neurocientista Fernanda Palhano-Fontes, da UFRN, observou que, durante o uso do composto, as pessoas apresentam atividade menor da rede cerebral acionada quando se está divagando ou remoendo pensamentos, algo comum na depressão. Segundo os pesquisadores, os resultados apoiam a ideia de que o estado alterado de consciência está relacionado à modulação dessa rede.

Controle das emoções e do humor

Em outro experimento, publicado em 2016 no Journal of Clinical Psychopharmacology, o grupo de Hallak deu uma dose de ayahuasca a 17 pessoas com depressão refratária a tratamento que nunca tinham consumido a bebida. Exames de imagens realizados oito horas após a ingestão do composto mostraram aumento da atividade de três áreas cerebrais responsáveis pelo controle do humor e das emoções (núcleo accumbens, ínsula direita e área subgenual esquerda) – os antidepressivos comuns também agem nessas regiões, mas levam mais tempo. Avaliações do humor realizadas no dia e nas três semanas seguintes mostraram uma redução importante dos sintomas depressivos até o 21o dia. “A ayahuasca parece agir como um antidepressivo duplo, reduzindo a degradação de serotonina e estimulando seus receptores”, explica o farmacólogo Rafael Guimarães dos Santos, da equipe da USP-RP. “Esses receptores controlam as emoções e a neuroplasticidade.”

Apesar dos resultados animadores, ainda não há informações suficientes que permitam indicá-la como um possível tratamento contra a depressão. Faltam dados mostrando que o uso da bebida é seguro no longo prazo e qual seria a dosagem terapêutica adequada. Também seria necessário avaliar um número bem maior de participantes por mais tempo, em estudos controlados com placebo. Mesmo que esses testes sejam feitos, Hallak tem dúvidas de que um dia a ayahuasca se torne um tratamento disseminado. “A ayahuasca tem alguma semelhança com os medicamentos fitoterápicos, mas é mais complexo garantir que seja produzida sempre com a concentração desejada dos princípios ativos”, diz.

Fonte: Revista Pesquisa

Ciência

Ibuprofeno: Como Ressaca Levou à Descoberta de Um dos Remédios Mais Populares do Mundo

Stewart Adams sabia que havia encontrado um possível novo analgésico quando se curou de uma ressaca pouco antes de fazer um discurso importante. 

“Eu era o primeiro a falar e estava com um pouco de dor de cabeça depois de uma noite com os amigos. Então tomei uma dose de 600 mg, só para garantir, e achei que foi muito eficaz.”

Adams morreu na última quarta-feira, aos 95 anos. Aos 92, o farmacêutico relembrou em entrevista à BBC os anos de pesquisa, os testes intermináveis de compostos e as muitas decepções antes de ele e sua equipe chegarem ao ibuprofeno. 

Desde a aprovação e comercialização da droga, há 50 anos, o ibuprofeno tornou-se um dos analgésicos mais populares do mundo. É difícil encontrar um armário de remédios que não tenha esses comprimidos. 

Está com febre? Dor de cabeça? Dor nas costas? Dor de dente? Então é provável que o ibuprofeno seja a droga escolhida para tratar seus sintomas porque é de ação rápida e está disponível até em supermercados. 

O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido alerta, no entanto, que o medicamento deve ser tomado na menor dose e pelo menor tempo possível, já que pode causar efeitos colaterais como náuseas e vômito. 

Sua popularidade para o tratamento de dores não é apenas um fenômeno em território britânico. Na Índia, por exemplo, é a escolha preferida para febre e dor e, nos Estados Unidos, tem sido um medicamento de venda livre desde 1984. Também é usado para tratar inflamação em doenças como a artrite.

E, como o próprio Adams notou em uma viagem ao Afeganistão na década de 1970, até as remotas farmácias da aldeia ao longo do passo Khyber vendiam sua descoberta.

A Procura Por Um Desafio

Tudo começou com um garoto de 16 anos de Northamptonshire, na Inglaterra, que deixou a escola sem um plano certo para o futuro.

Ele foi ser aprendiz em farmácia na Boots, hoje uma grande rede do ramo, e a experiência o levou a buscar uma licenciatura em farmácia na Universidade de Nottingham, seguida por um doutorado em farmacologia na Universidade de Leeds, antes de retornar ao departamento de pesquisa da Boots, em 1952.

Sua missão na época era encontrar um novo tratamento para artrite reumatoide que fosse tão eficaz quanto um esteroide, mas sem os efeitos colaterais.

Ele começou a analisar os anti-inflamatórios e, em particular, o modo como a aspirina funcionava, o que ninguém mais parecia estar fazendo.

A aspirina foi o primeiro anti-inflamatório não esteroide a ser desenvolvido, em 1897. Embora fosse comumente usada como analgésico na época, ela tinha de ser administrado em doses muito altas, de modo que o risco de efeitos colaterais, como reação alérgica, sangramento e indigestão, era grande. Isso significava que, nos anos 50, ele estava caindo em desuso no Reino Unido.

Dez Anos de Pesquisa

Na busca por uma alternativa, Adams recrutou o químico John Nicholson e o técnico Colin Burrows para ajudá-lo a testar a potência de mais de 600 compostos químicos. A chave era encontrar uma droga que fosse bem tolerada pelo corpo. 

Da sala da frente de uma antiga casa vitoriana nos subúrbios de Nottingham, a pequena equipe testou pacientemente os compostos até encontrar algo que valesse a pena submeter a testes clínicos.

Adams percebeu que suas chances de sucesso eram mínimas, mas ele e sua equipe perseveraram por 10 anos.

“Achava que nós teríamos sucesso eventualmente – eu sempre senti que seríamos bem sucedidos.”

E ele estava sempre preparado para agir como cobaia, testando dois ou três compostos em si mesmo.

Adams admitiu que isso nunca seria permitido nos dias de hoje, mas disse que pelo menos eles tiveram o cuidado de realizar testes de toxicidade de antemão.

“Foi importante testá-los e fiquei empolgado em ser a primeira pessoa a tomar uma dose de ibuprofeno.”

Durante aquele período, quatro drogas foram para testes clínicos e falharam antes de que, em 1961, eles chegassem ao composto chamado de ácido 2-(4-isobutilfenil)propanoico ou ácido isobutilpropanoicofenólico, que mais tarde se tornaria o ibuprofeno.

Uma patente para a substância foi concedida a Boots em 1962 e aprovada como medicamento de prescrição sete anos depois.

De acordo com Dave McMillan, ex-chefe de desenvolvimento de saúde da Boots Reino Unido, o ibuprofeno foi uma droga extremamente importante para a empresa.

“Isso salvou a Boots, ajudou a expandi-la para os EUA e para todo o mundo. Era a droga número um da Boots.”

Incríveis 20 mil toneladas de ibuprofeno são produzidas todos os anos por uma série de empresas sob diferentes marcas. Existem formatos distintos também, incluindo doses líquidas desenvolvidas especificamente para crianças.

Adams foi homenageado por sua pesquisa com um doutorado honorário em ciência pela Universidade de Nottingham e duas placas da Sociedade Real de Química. Ele permaneceu na Boots pelo resto de sua carreira, tornando-se chefe de ciências farmacêuticas.

O que mais lhe agradava é que centenas de milhões de pessoas em todo o mundo tomavam o remédio que ele descobriu.

Foi um longo caminho — e tudo começou com uma dor de cabeça.

Como o Iboprufeno Funciona?

É um medicamento anti-inflamatório não esteroide. Porque tem uma estrutura química diferente dos esteroides, o ibuprofeno não é tão tóxico. 

Ele reduz a dor ao mirar em compostos chamados prostaglandinas, que causam inflamação no corpo. A inflamação pode causar inchaço, calor, vermelhidão, perda de função, febre e dor.

O efeito analgésico começa logo após a dose ser tomada, mas pode levar mais tempo para a inflamação diminuir.

O sucesso do ibuprofeno tem sido no tratamento de pequenas dores. Mas, como todo medicamento, ele tem efeitos colaterais, principalmente se seu uso for contínuo. Riscos de ataques cardíacos e abortos estão entre eles, além de reações menos graves, como náuseas e vômito. 

No ano passado, pesquisadores da Universidade de Copenhague constataram outros efeitos do uso prolongado do ibuprofeno, como infertilidade masculina, perda muscular, fadiga e disfunção erétil.

Fonte: BBC News

Ciência, História

A Participação de Marie Curie na Primeira Guerra Mundial

É provável que Marine Curie seja a mulher mais conhecida da ciência. A polonesa naturalizada francesa realizou pesquisas pioneiras sobre a radioatividade, pelas quais ganhou não um, mas dois prêmios Nobel — ela é a primeira e única pessoa a ganhar o prêmio duas vezes. Mas o que talvez pouca gente saiba é que ela teve uma atuação importante na Primeira Guerra Mundial.

Há 100 anos, durante a guerra, enquanto as tropas alemãs chegavam a Paris, Curie teve o cuidado de pausar suas pesquisas. Ela guardou seu estoque de Rádio em um container, levou-o a Bordeaux, no sul da França, e o deixou em um cofre de um banco local. Com seu principal objeto de estudos a salvo, ela buscou outra tarefa. E, em vez de fugir do conflito, ela decidiu entrar nele. Não lutando, muito menos fabricando armas, mas salvando vidas.

Os raios-X, um tipo de radiação eletromagnética, foram descobertos em 1895, pouco antes do início da guerra, por Wilhelm Roentgen. Os médicos logo começaram a usar as máquinas para encontrar objetos estranhos nos corpos dos pacientes como, por exemplo, balas. O recurso era valioso para tratar os feridos durante uma guerra, ajudando a tornar as cirurgias mais precisas. Quando ela estourou, porém, as máquinas só eram encontradas em hospitais da cidade, muito longe dos campos de batalha onde soldados eram tratados.

A solução foi criada por Curie. Ela inventou o primeiro “carro radiologista”, um veículo adaptado com uma máquina de raios-X e equipamentos para revelar as imagens. O carro incluía uma espécie de gerador elétrico movido pelo motor que fornecia a energia necessária para os raios-X funcionarem.

O exército francês não quis financiar a invenção de Curie, a fazendo buscar apoio na União das Mulheres da França, que deu a ela o dinheiro para produzir o primeiro carro. Como um só carro não bastava, Curie foi atrás de mulheres francesas ricas que pudessem doar veículos. Conseguiu 20.

Aí faltava treinar operadores para os equipamentos, e a cientista mais uma vez buscou mulheres para o serviço, oferecendo cursos de treinamento para mulheres voluntárias, ensinados por ela e sua filha Irène, que anos depois também ganhou um prêmio Nobel por ter descoberto a radioatividade artificial.

Cerca de 150 mulheres foram treinadas por Curie e partiram para o front nos “pequenos Curie”, como os carros eram apelidados. A própria cientista participou — para isso, não só teve que aprender a dirigir,  como também princípios básicos de mecânica, entre eles trocar pneus e limpar carburadores. No fim, estima-se que o esforço de Curie e seu pequeno exército de mulheres tenha sido o responsável pelas radiografias de mais de um milhão de soldados durante a Primeira Guerra Mundial.

Embora poucas mulheres que trabalhavam nos pequenos Curie tenham sido vítimas diretas dos combates, muitas sofreram queimaduras por causa da superexposição aos raios-X. A própria Curie sabia que tamanha exposição traria riscos para a saúde, entre eles câncer. Ela contraiu anemia aplástica, uma doença no sangue. Muitos acreditam que teria sido decorrente dos anos de exposição ao Rádio, mas a própria Curie atribuía a doença à exposição aos raios-X durante a guerra. Embora nunca se saberá com certeza se eles foram, de fato, uma análise de seus restos mortais em 1995 mostrou que seu corpo não apresentava vestígios de Rádio.

Fonte: Revista Galileu

Ciência, Concurso

Competição Busca Projetos Inovadores Para a Área de Saúde

Estão abertas as inscrições para o 4º Desafio Pfizer, prêmio que estimula a inovação e o empreendedorismo no Brasil na área da saúde. Esta edição será composta por duas categorias, Sempre on Innovation e Sempre on Medical, cada uma buscando perfis diferentes de competidores.

A primeira será voltada para jovens startups, inventores e universitários que ofereçam soluções digitais e produtos inovadores com o objetivo de melhorar a saúde e o bem-estar.

Os autores dos melhores trabalhos desta categoria receberão passagens aéreas e hospedagens para participar do South by Southwest (SXSW), conferência de inovação, empreendedorismo e economia criativa que ocorrerá entre 7 e 13 de março, em Austin, nos Estados Unidos.

Todos os finalistas serão convidados a participar de uma semana de incubação em inovação e treinamentos, que será composta por palestras, mentorias, workshops no Laboratório de Inovação da Pfizer (Pfizer sempre on Lab), em São Paulo.

Já a Sempre on Medical será destinada a médicos com a proposta de reconhecer as melhores pesquisas em três áreas do conhecimento: clínica, epidemiológica e básica (como biologia, bioquímica e farmacologia).

Os médicos responsáveis pelos trabalhos vencedores em cada especialidade ganharão passagens aéreas e hospedagens HIMSS19 Global Conference & Exhibition, de 10 a 15 de fevereiro de 2019, em Orlando, nos Estados Unidos.

Os segundos e terceiros colocados de cada área receberão convites para participar de dois dias da HIMSS@Hospitalar 2019, que será realizada entre 21 e 24 de maio, em São Paulo.

Todos os finalistas poderão assistir a uma conferência de um dia no Laboratório de Inovação da Pfizer sobre gestão e boas práticas gerenciais na saúde, voltadas para o dia a dia do médico.

Interessados em participar podem se inscrever por meio do portal www.desafiopfizer.com.br para ler o regulamento.

Fonte: globo.com

Ciência, Saúde

Cem Anos Depois, Gripe Espanhola Carrega Lições Para a Próxima Pandemia

Há 100 anos, a gripe espanhola infectou um terço da humanidade, matando dezenas de milhões e provocando pânico em continentes que ainda se recuperavam da guerra.

Cientistas dizem que, embora lições tenham sido aprendidas com a pandemia mais mortal da história, o mundo está mal preparado para o próximo assassino global.

Em particular, eles alertam que alterações demográficas, resistência a antibióticos e mudanças climáticas podem complicar qualquer surto futuro.

“Agora enfrentamos novos desafios, incluindo o envelhecimento da população, pessoas vivendo com doenças como obesidade e diabetes”, disse à AFP nesta segunda-feira (8) Carolien van de Sandt, do Instituto Peter Doherty para Infecção e Imunidade.

Os cientistas preveem que a próxima pandemia de influenza – provavelmente uma cepa da gripe aviária que infectará humanos e se espalhará rapidamente pelo mundo através de viagens aéreas – pode matar até 150 milhões de pessoas.

Van de Sandt e sua equipe examinaram uma grande quantidade de dados sobre a gripe espanhola, que afetou o planeta em 1918.

Os pesquisadores também estudaram três outras pandemias: a gripe asiática de 1957, a gripe de Hong Kong de 1968 e o surto de gripe suína de 2009.

Eles descobriram que, embora a gripe espanhola tenha infectado uma em cada três pessoas, muitos pacientes conseguiram sobreviver à infecção grave e outros apresentaram apenas sintomas leves.

Ao contrário da maioria das nações, que usaram a censura durante a guerra para reprimir as notícias sobre a disseminação do vírus, a Espanha permaneceu neutra durante a Primeira Guerra Mundial. Numerosos relatos da doença na mídia espanhola levaram muitos a supor que a doença se originou lá, e o nome acabou ficando.

Hoje acredita-se amplamente que a cepa da gripe em 1918 na verdade surgiu entre militares americanos e matou uma quantidade desproporcionalmente alta de soldados e jovens, mas os pesquisadores disseram que as coisas seriam diferentes desta vez.

Em 1918, em um mundo que lutava contra o impacto econômico da guerra global, o vírus se tornou mais letal devido às altas taxas de desnutrição.

Mas a equipe por trás de um novo estudo, publicado na revista Journal Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, disse que o próximo surto se espalhará no mundo desenvolvido entre uma população que sofre com taxas recordes de obesidade e diabetes.

Duplo fardo

O que sabemos da pandemia de 2009 é que pessoas com certas doenças (como obesidade e diabetes) tiveram probabilidade significativamente maior de serem hospitalizadas e morrer de gripe”, disse à AFP Kirsty Short, da escola de Química e Biociências da Universidade de Queensland.

A equipe alertou que o mundo enfrentava um “duplo fardo” de doenças graves devido à desnutrição generalizada nos países pobres – exacerbada pelas mudanças climáticas – e à supernutrição nos países mais ricos.

E o aquecimento global poderia impactar de outras formas.

Van de Sandt disse que, uma vez que muitas cepas de influenza começam nas aves, um planeta em aquecimento pode alterar onde o próximo surto surgirá.

“A mudança climática pode mudar os padrões de migração das aves, trazendo potenciais vírus pandêmicos para novos locais e potencialmente uma variedade maior de espécies de aves”, disse.

Uma coisa que a investigação sobre 1918 levantou foi que as pessoas mais velhas se saíram significativamente melhor contra a cepa do vírus do que os adultos mais jovens.

A equipe teorizou que isso se devia em parte ao fato de que os cidadãos mais velhos acumularam alguma imunidade por meio de infecções anteriores.

A maioria das mortes no surto de 1918 – cerca de 50 milhões de pessoas, ou 2,5% dos infectados – foi devido a infecções bacterianas secundárias, algo que os antibióticos ajudaram a aliviar durante as pandemias subsequentes.

Mas hoje muitas bactérias são imunes a antibióticos.

“Isso aumenta o risco de que as pessoas sofram novamente e morram como resultado de infecções bacterianas secundárias durante o próximo surto pandêmico”, disse Katherine  Kedzierska, do Instituto Doherty, em Melbourne.

Os autores soaram particularmente alarmados com o influenza  H7N9 aviário – um vírus que mata cerca de 40% das pessoas infectadas, mesmo que atualmente não possa passar de humano para humano.

“No momento, nenhum desses vírus adquiriu a capacidade de se espalhar entre humanos, mas sabemos que o vírus só precisa fazer algumas pequenas mudanças para que isso aconteça e poderia criar uma nova pandemia de gripe”, disse Van de Sandt.

Informar o público

Enquanto o mundo em 2018, com mais de sete bilhões de pessoas, megacidades e viagens aéreas globais, seja muito diferente de um século atrás, os pesquisadores insistem em que há muitas lições que a gripe espanhola pode ensinar aos governos de hoje.

Por natureza, as cepas de vírus pandêmicos são imprevisíveis – se as autoridades soubessem com certeza qual gripe se alastraria, poderiam investir em uma vacina amplamente disponível.

Até que uma vacina universal seja criada, “os governos devem informar o público sobre o que esperar e como agir durante uma pandemia”, disse Van de Sandt.

O estudo disse que os governos poderiam usar o poder comunicativo da internet para ajudar a espalhar o conhecimento e as instruções no caso de uma nova pandemia.

“Uma lição importante da pandemia de influenza de 1918 é que uma resposta pública bem preparada pode salvar muitas vidas”, disse Van de Sandt.

Fonte: UOL

Ciência, História

‘História em Quadrinhos’ de 2 Mil Anos é Encontrada na Jordânia

Um túmulo localizado no atual território da Jordânia, no Oriente Médio, chamou a atenção de arqueólogos: nele, há 260 imagens ordenadas de forma a contar a história da formação da cidade das Capitolias, e provavelmente de seu fundador ali enterrado, com formas arcaicas de balõezinhos de fala que representam uma história em quadrinhos de 2 mil anos de idade.

Duas câmaras funerárias e um grande sarcófago de basalto foram descobertos por uma escavadeira mecânica que trabalhava na encosta de uma colina, em frente a uma escola da vila de Bayt Ras, no norte do país, em 2016.

O túmulo está localizado no local da antiga cidade das Capitolias, que foi fundada no final do primeiro século e fazia parte da Decápolis, uma região que reunia cidades com influências das culturas grega e romana, entre a Jordânia e a Síria.

Em outros túmulos da Decápole, a mitologia também está representada, mas as falas representadas fornecem informações preciosas para os arqueólogos.

“As inscrições são realmente semelhantes às bolhas de fala nos quadrinhos, porque descrevem as atividades dos personagens (“Estou cortando pedra”, “Ai de mim! Estou morto!”), o que é extraordinário “, conta o pesquisador francês Jean-Baptiste Yon, do consórcio internacional de especialistas criado pelo Departamento de Antiguidades da Jordânia.

A história começa com divindades provando ofertas recebidas por humanos, e segue com homens trabalhando a terra, colhendo frutos, até que recebem ajuda dos deuses para derrubar árvores, um assunto extremamente raro em imagens greco-romanas.

O conto segue em outro painel, com representações de arquitetos — ou capatazes — vigiando o trabalho pesado de pedreiros, cortadores de pedra e carregadores, muitos vítimas de acidentes. “Ai de mim! Estou morto!”, seguido por um padre que oferece sacrifício para os deuses guardiões da cidade.

Finalmente, expostas no teto e nas paredes dos dois lados da entrada, há uma composição mais clássica evocando o Nilo e o mundo marinho, em que ninfas conduzem animais aquáticos flanqueados por cupidos, enquanto um medalhão central combina signos do zodíaco e planetas ao redor.

“De acordo com a nossa interpretação, há uma boa chance de que a figura enterrada na tumba seja a pessoa que se representou enquanto oficiava na cena do sacrifício da pintura central, e que consequentemente foi o fundador da cidade “, comenta outro pesquisador, Pierre-Louis Gatier. “Seu nome ainda não foi identificado, embora possa estar gravado na porta, que ainda não foi limpa.”

Essas, no entanto, não podem ser chamados de quadrinhos mais antigos do mundo, os antigos egípcios também combinaram ilustrações e textos para contar uma história.

Fonte: Revista Galileu