Opinião

Apatia

Leilaine da Silva

Leilaine da Silva. É esse o nome da mulher que, na garupa de uma moto, quase foi atingida pelo helicóptero em que estava o jornalista Ricardo Boechat e o piloto Ronaldo Quattrucci. Leilaine voltou para socorrer o motorista do caminhão, atingindo pelo helicóptero, João Adroaldo Tomackeves. Dela se viu toda coragem, luta pela vida do outro, incompreensão ao não socorrer os envolvidos com a mínima chance de sobrevivência. Na cabeça dela, todos poderiam ter sido socorridos. Isso é empatia. Isso é sair da zona de conforto. Isso é acreditar até o fim, mesmo sem conhecer aquelas pessoas que estavam alí.

O exemplo de Leilaine, muitos dizem que até irresponsável e inconsequente, deveria ser levado para todas as áreas desse país que tem passado por tantas coisas em tão pouco tempo. Temos governos apáticos, sem entusiasmo, clichês, burocráticos. Somos esferas de poder letárgicas. Os gestores são o óbvio, suas falas não passam confiança e dão tom, ainda que não seja, de fingimento. Seus secretários não se engajam, suas ações não convencem, a vontade de aparecer sem fazer algo realmente dignificante prevalece. O povo tem pressa e não tem paciência.

O heroísmo inconsequente e irresponsável de Leilaine é típico de quem sai da posição de divulgador da desgraça dos outros para ser graça na vida dos outros; é típico de quem quer fazer acontecer, usando todas as possibilidades e forças, sem pensar em para quem está sendo feito. Nada mais incomum nesse mundo midiático, nesse país do jeitinho, do fazer algo para ganhar alguma coisa depois.

Apatia
Nossos poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) não aprendem com os erros. Nosso povo não aprende com os erros. Choramos todas as desgraças, não tomamos providências sérias para evitar nenhuma. Não mantemos vigilância. Não damos continuidade. Somos tragados pela próxima tragédia, pelo próximo lamento. O sistema é corrompido, e nós somos o sistema. Até quando ficaremos admirando a coragem e a empatia de uma Leilaine enquanto filmamos o mundo pegar fogo ou ser afundando na próxima enchente?