Esporte, Futebol

Há 105 Anos Nascia Leônidas, o Homem que Popularizou a Bicicleta no Futebol

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Com nome de rei e sobrenome que nos remete ao país do futebol-arte, Leônidas da Silva foi o primeiro brasileiro a ganhar fãs pelo mundo pelas habilidades com as pernas.

Eleito melhor jogador e artilheiro da Copa do Mundo de 1938, com sete gols, virou nome de chocolate, o Diamante Negro, ao encantar os amantes de um esporte que começava a caminhar para o profissionalismo. Com suas pedaladas no ar, foi o maior ídolo do futebol brasileiro na era pré-Pelé.

Nesta quinta-feira, data em que completam-se 105 anos do nascimento do homem que eternizou a bicicleta e marca o meu retorno das férias, o 10 e Faixa Ou Não volta cinco anos no passado para reproduzir um especial em homenagem ao craque que defendeu Bonsucesso, Botafogo, Vasco, Flamengo e São Paulo. Além, é claro, da Seleção.

Já que no dia 6 de setembro de 2013, quando eu ainda começava a escrever minhas primeiras linhas para o site, em parceria com meus amigos e antigos companheiros de redação, Chandy Teixeira e Tébaro Schmidt, tive a honra de viajar no tempo e resgatar a história de um ídolo do passado que deveríamos falar mais nele – assim como em tantos outros. Até hoje, este é um dos trabalhos que mais me orgulho em ter participado.

Diamante Negro

Histórias incríveis: O mito Leônidas, diamante da bola, batiza chocolate

Como materializar o prazer de ver Leônidas da Silva desfilar nos gramados? Talvez somente uma substância capaz de inundar o cérebro de êxtase: o chocolate. No período em que o mundo da bola transitava entre o amadorismo e o profissionalismo, os pés de um homem inspiraram uma geração inteira e ajudaram a difundir o futebol como um esporte tipicamente brasileiro. Das peladas em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, para as prateleiras dos supermercados, o Diamante Negro brilhou e transcendeu o tempo presente para ficar para sempre nos livros de história. Sim, um apelido de jogador de futebol virou nome de chocolate. E não era um jogador qualquer. Era, simplesmente, um fora de série. Fosse vivo, Leônidas completaria 100 anos nesta sexta-feira (este ano, 2018, completaria 105). Porém, a eternidade da sua obra de arte mais conhecida, a bicicleta, jogada das mais difíceis de serem executadas e que o centroavante fazia com maestria, estará garantida até que o último campo de terra batida desapareça.

Seduzida pela fama alcançada pelo melhor jogador e artilheiro da Copa do Mundo de 1938, com sete gols, a fábrica Lacta resolveu rebatizar um de seus produtos mais badalados em uma homenagem ao atacante. Primeiro, se chamava Chocolate ao Leite com Crocante Lacta. Depois, o primeiro chocolate crocante do Brasil passou a se chamar Diamante Negro. Além de popularizar o futebol e, sobretudo, o Flamengo, a imagem de Leônidas alavancou a venda da barra, ainda hoje uma das mais vendida do país.

O mito que foi Leônidas não se baseia apenas nas lembranças daqueles que o acompanharam. Os números também sustentam seus feitos. Afinal, ninguém possui uma média de gols maior com a camisa da seleção brasileira. Foram 38 tentos em 38 partidas – um gol por jogo. Somente em Copas do Mundo, balançou a rede oito vezes em cinco partidas.

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– Era um artilheiro espetacular. Um grande jogador. Técnico, rápido, sabia tudo. Era simplesmente um craque – disse aquele que entende do assunto: Ademir da Guia, um dos maiores ídolos do Palmeiras e filho de Domingos da Guia, grande amigo de Leônidas.

Pelo clube que o alavancou, o Bonsucesso, Leônidas colocou seu nome em definitivo no livro da eternidade. Foi vestindo a camisa do Leão da Leopoldina que executou, pela primeira vez, a bicicleta. Jogada da qual não foi inventor, mas que de longe foi o maior executor. O estádio do clube por onde marcou o primeiro gol dessa maneira, inclusive, ganhou seu nome.

– Leônidas era o Pelé da época. No entanto, foi Pelé numa época em que ainda não existia a grande mídia. Um jogador fora de série – resumiu André Ribeiro, jornalista responsável pela biografia mais completa do jogador.

O início e a bicicleta

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Nascido em São Cristóvão, Leônidas deu seus primeiros passos no clube do bairro, em 1923. Ficou por lá até 1929, quando se transferiu para o clube também carioca Sírio Libanês. Embora já se passassem seis anos de carreira, o Brasil só conheceu o jogador em 1931. Leônidas se transferia para o Bonsucesso. Leônidas se transferia para a história.

No dia 24 de abril do ano seguinte, na partida entre Bonsucesso e Carioca, executou a bicicleta pela primeira vez na carreira.

– Acho que a história do Leônidas, apesar de ter começado no Bonsucesso, se deu a partir da sua fama na Seleção. Mas foi no Bonsucesso, clube pelo qual fez aquele gol de bicicleta, que marcou a história. Ele lançou a jogada no Teixeira de Castro, que, anos depois, foi eternizado com o nome dele – contou José Ferreira Simões, então presidente do clube carioca.

Na equipe rubroanil, Leônidas ficou apenas dois anos. Mas o suficiente para explodir e chamar a atenção de outras equipes. Inclusive do exterior. Fechou com o Peñarol, do Uruguai, de onde já teria voltado com seu primeiro apelido: Homem-Borracha. Uma alusão a sua elasticidade, necessária para executar a bicicleta. Também passou por Vasco e Botafogo antes de chegar ao Flamengo, em 1936. E foi campeão carioca nos dois clubes. Pelo time cruz-maltino, em 1934. Pelo alvinegro, em 1935.

O inventor ou maior executor?

Por muito tempo, acreditou-se que Leônidas teria sido o inventor da bicicleta. Reza a lenda que o craque teria visto Petronilho de Brito executar a difícil jogada e a aperfeiçoou. O próprio Leônidas nunca rogou a si mesmo a invenção da obra, mas também não deixava de dizer que a popularizou – o Rei Pelé, após ter visto o Diamante Negro fazê-la, foi um dos que também a realizaram com sucesso.

– Um dia, ele ainda lúcido, me disse: “Já se fazia. Eu, por ser um homem famoso, a popularizei. Não sou o inventor, não cometeria essa leviandade. Eu era apenas um dos melhores executores” – disse André Ribeiro.

A viúva do jogador faz coro com o jornalista. Ela acrescentou que o próprio marido acreditava que foi o maior divulgador da jogada.

– Olha, é o seguinte: ele sabia muito bem do talento dele. Sabia o que era, o que ele valia. Eu vou dizer o que ele sempre disse. São palavras dele: “O futebol tem mais de 100 anos. Com certeza, alguns jogadores fizeram essa jogada, só que não deram nome. Era uma jogada qualquer. Ele não acha que inventou, mas acha que foi quem mais divulgou a jogada – disse.

Anos de ouro

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Em 1936, Leônidas chegou a um Flamengo que amargava um jejum para lá de desconfortável. Afinal, eram nove anos sem um título sequer. Antes de levantar a taça pelo Rubro-Negro, no entanto, o jogador sentiu o gosto amargo de ser derrotado em Estaduais pelo maior rival da época, o Fluminense, da dupla Romeu e Tim. O título que deu fim à sequência negativa do clube surgiu apenas em 1939. Em seis anos de Flamengo, o atacante marcou incríveis 153 gols em 149 partidas, o que o faz o jogador com a maior média de gols da história do clube rubro-negro.

A contratação de Leônidas, juntamente com as de outros dois craques negros, Domingos da Guia, o Divino Mestre, e Fausto dos Santos, o Maravilha Negra, elevou o Flamengo a um patamar que o tornou definitivamente um clube de massa. Foi um salto gigantesco de popularidade da equipe que hoje possui a maior torcida do Brasil.

Durante a Copa de 1938, Leônidas chegou ao auge da carreira. Em pesquisa, sua popularidade foi comparada com a do presidente da República, Getúlio Vargas. No Mundial, encantou o mundo e o jornalista francês Raymond Thourmagen, que, reza a lenda, criou o apelido de “Diamante Negro”. Além da alcunha, o craque voltou como artilheiro da Copa – há quem diga que marcou oito gols, mas, segundo a Fifa, fez sete – e com o status de melhor atleta da competição na bagagem. O Brasil ficou em terceiro lugar, a melhor posição da Seleção até então. Uma lesão o tirou do jogo contra a Itália, equivalente à semifinal do torneio, que culminou com a eliminação do Brasil.

– A genialidade dele fez falta naquela última partida da Seleção – lamentou Ademir da Guia.

Fonte: Globo Esporte