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Sucesso do Fusca Afastou Passado Nazista

Hitler - Hoffmann-Getty Images
Foto: Hoffmann/Getty Images

Dois homens e um megaprojeto: Adolf Hitler e Ferdinand Porsche foram os criadores do Fusca. Porsche como engenheiro projetista, Hitler como mentor político. “Foi o encontro de duas partes que se encaixavam”, resumiu o historiador Wolfram Pyta, professor de História Contemporânea na Universidade de Stuttgart.

Com os colegas Nils Havemann e Jutta Braun, Pyta traçou a história da empresa fundada em 25 de abril de 1931, em Stuttgart, no livro Porsche. Vom Kunstruktionsbüro zur Weltmarke (Porsche. De escritório de design a marca mundial, em tradução livre). Sem o apoio do ditador, Porsche não teria podido finalizar o projeto do Volkswagen (carro popular, em alemão), aponta o historiador.

“Hitler precisava de uma mente criativa para construir um veículo compacto apropriado para a produção em série”, explica Pyta. “E Porsche precisava de uma encomenda política que lhe permitisse projetar sem a pressão de custos.”

Motorização e Estabilização

Já no Salão Internacional do Automóvel de fevereiro de 1933, ou seja, poucas semanas após a sua nomeação como chanceler do Reich, Hitler anunciava a “motorização popular”. Em meados de 1934, a “Associação da Indústria Automotiva Alemã do Reich” encomendava à Porsche o projeto de um carro “Kraft durch Freude” (força através da alegria), em homenagem à organização nazista homônima, de atividades recreativas.

Em 29 de dezembro de 1935, Hitler – que não possuía nenhuma carteira de motorista – recebeu pessoalmente o protótipo de seu “carro popular”. Dois anos e meio depois, a pedra fundamental da fábrica da Volks em Wolfsburg era lançada em 26 de maio de 1938, com a presença do “Führer”.

No início, o automóvel da “força através da alegria” não serviu à “motorização popular”, mas sim à Wehrmacht, as Forças Armadas nazistas. Ele foi utilizado como carro utilitário e de comandante (“Küberlwagen”) e veículo anfíbio na campanha de guerra.

Ninguém ficou surpreso, no entanto, com esse uso militar adicional. Pois, desde o início, tal conversão estava planejada. Num documento de 1934, Porsche afirmava que “um carro popular deve servir não somente como veículo de passageiros, mas também para entregas e propósitos militares específicos.”

Um Fusca Francês?

A história de sucesso do carro compacto para o povo começou, na verdade, após Segunda Guerra Mundial. Para se distanciar do passado nazista, ele foi apelidado de “Käfer” (besouro) na Alemanha. Já em dezembro de 1945, meio ano após o fim da guerra, o primeiro “Käfer” deixava a linha de montagem.

Dez anos mais tarde, a fábrica da Volks em Wolfsburg comemorava a produção da milionésima unidade. O carro com a carroceria arredondada e motor boxer avançava como símbolo do milagre econômico alemão. Com o nome de Beetle, Fusca ou Vocho, ele conseguiu recordes de vendas em todo o mundo. No total, foram produzidas e vendidas 22 milhões de unidades do carro popular da Volks.

O distanciamento do passado nazista já aconteceu no período pós-guerra. Em outubro de 1945, o Ministério da Produção Industrial da França, que na época era liderado pelos comunistas, entrou em contato com Porsche.

“Em nenhum outro campo pode-se ver tão claramente o distanciamento bem-sucedido do nazismo como no esforço do governo francês para abocanhar para si os serviços do engenheiro projetista da Volks”, afirma Pyta.

“Oportunismo sem limites”

A concorrência francesa sabia que era preciso evitar que o carro popular francês fosse associado ao passado nazista. “Houve uma intriga entra as concorrentes Renault e Peugeot. Porsche e seu genro Anton Piëch foram acusados de envolvimento em crimes de guerra”, aponta Pyta.

Surpreendentemente, em dezembro de 1945, Porsche foi então colocado sob a custódia das autoridades militares francesas, onde permaneceu até agosto de 1947. O sucesso mundial do Fusca não foi capaz de impedir a detenção.

Para Pyta, uma cooperação entre Hitler e Porsche não é algo tão excepcional, pois supostos homens de ação apolíticos deixam-se muitas vezes impressionar quando governantes autoritários os atraem com megaprojetos fascinantes.

“Porsche não foi o único a cooperar com ditadores, sem nenhuma preocupação moral e num oportunismo sem limites”, afirma o historiador. “Às vezes, empresários interessados somente no sucesso de sua firma ou na implementação de ambiciosos projetos tecnológicos não têm nenhum escrúpulo ao fazer acordos com governantes autoritários.”

Fonte: Terra