Esporte

O Brasil Foi Hepta e Ninguém Viu

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A seleção brasileira foi heptacampeã da Copa América de futebol feminino neste domingo encerrando uma campanha perfeita na competição, sem nenhum tropeço e com apenas dois gols sofridos. Foram sete jogos e 31 gols marcados para garantir o sétimo título em oito edições do torneio já disputadas desde 1991.

Mais do que isso, a campanha confirma o Brasil na Copa do Mundo da França no ano que vem e também nos Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020. Tudo isso ainda com o trio memorável da seleção em ação – Marta, Cristiane e Formiga, esta que inclusive disputou o torneio aos 40 anos e saiu dele com dois gols anotados (esse último mostra como ela ainda tem fôlego de sobra).

No entanto, pouca gente soube que a seleção feminina estava jogando neste domingo. Pouca gente sabia, inclusive, que havia uma Copa América sendo disputada e que ela valia vaga para Mundial e Olimpíada. Quase ninguém conseguiu acompanhar os jogos, aliás: não houve transmissão de nenhum deles em nenhum canal de televisão.

Os amantes da seleção feminina puderam ver alguma coisa apenas pelas redes sociais da CBF – que, aliás, precisa ser elogiada por ter realizado a transmissão dos últimos jogos pelo Twitter com a narração de MULHERES! Sim, uma parceria com o processo seletivo da Fox Sports para escolher narradoras para a Copa do Mundo da Rússia fez com que fosse possível ouvir vozes femininas narrando os gols delas nos últimos três jogos da Copa América.

De resto, nenhuma manchete de jornal, nenhum minuto gasto nos telejornais esportivos, nada. Não se falou sobre o feito da seleção feminina no Chile, nem mesmo para criticar o desempenho ruim das adversárias, que realmente não são páreo para o Brasil – se o futebol feminino já tem pouca estrutura por aqui, nos outros países da América do Sul o cenário é ainda pior .

Mas aí virão aqueles velhos argumentos conhecidos: “futebol feminino é chato”; “ninguém quer ver isso”; “ninguém transmite porque não dá audiência”. Pois bem. Devo admitir que um dia até eu mesma acreditei em algumas dessas saídas fáceis para justificar o porquê o futebol feminino não estava na TV , nos jornais, nos sites, na mídia afinal. Mas “estudando” bastante sobre o tema recentemente, percebi que não é tão simples assim – e que talvez a falta de vontade e o preconceito pesem mais na decisão de não incluir a modalidade na grade.

Explico com dados recentes: na Olimpíada do Rio – que bateu todos os recordes de audiência na TV brasileira – a quarta maior audiência foi a do futebol feminino (nas quartas-de-final contra a Austrália). A semifinal contra a Suécia também esteve na lista dos 10 eventos mais assistidos pelos brasileiros nos Jogos. Mas aí vão dizer: tudo bem, era Olimpíada, todo mundo assiste a qualquer coisa na Olimpíada.

Ok, então vamos ao pós-Olimpíada. Dados divulgados pela CBF em dezembro de 2016 e publicados no site Máquina do Esporte mostram que a entidade conseguiu atingir 9 milhões de pessoas apenas com as transmissões ao vivo dos jogos do Torneio Internacional de Manaus daquele ano.

Mais do que isso, uma pesquisa do Ibope Repucom também feita no fim de 2016 mostrou que o crescimento do interesse pelo futebol feminino aumentou mais do que o interesse por qualquer outra modalidade depois da Olimpíada. Um total de 51% dos entrevistados disseram estar interessados em saber mais sobre o futebol feminino – contra os 34% que responderam isso antes da Olimpíada.

Uma pesquisa divulgada na New Yorker apontou que em 2014, a ESPN, principal canal esportivo da TV americana, dedicou 97% de tempo no ar falando sobre esportes masculinos. Só 3% de todo o tempo dos programas e transmissões esportivas na televisão foram “cedidos” a modalidades femininas – e por aqui, infelizmente, o cenário não é diferente. Falamos sobre isso com um professor de Harvard.

“A maioria dos argumentos que você ouve sobre isso é que as pessoas não gostam de esportes femininos. Mas para mim, o motivo disso é que as pessoas não conhecem os esportes femininos”, disse Brian Fobi, professor de Jornalismo Esportivo de Harvard que trabalhou por anos na Fox Sports, um dos principais canais esportivos dos Estados Unidos. “A ESPN é uma empresa e eles dizem que não vão perder tempo com esportes que não dão audiência. Mas não dão audiência porque a ESPN não perde tempo com eles. E aqui está uma coisa: até 1994, pouquíssimos americanos gostavam de futebol, fosse ele masculino ou feminino. Mas a ESPN gastou rios de dinheiro para promovê-lo e agora milhões de americanos assistem à Copa do Mundo. Isso mostra que se você promove algo da maneira certa, se você faz com que as pessoas se importem com ele, então elas vão consumi-lo”, observou o professor de Harvard.

No Brasil, é possível citar o caso do futebol americano. Um pouco mais de 20 anos atrás, quando a ESPN começou a transmitir a NFL, pouca gente tinha qualquer interesse em ver aquele esporte tão complexo da bola oval. E eu não tenho dúvidas de que os jogos davam traço de audiência. Mas a ESPN insistiu, criou programas para falar sobre futebol americano, investiu em transmissões didáticas e divertidas com Everaldo Marques e Paulo Antunes e hoje a NFL virou febre por aqui, com o SuperBowl batendo recordes e mais recordes de audiência.

Isso não necessariamente quer dizer que, se colocarem futebol feminino na TV amanhã, ele vai bater todos os recordes de audiência da história dos canais esportivos brasileiros. Mas mostra, sim, que há um potencial a ser explorado aí. Com um investimento “pequeno” – se comparado ao custo bilionário de direitos de transmissão de campeonatos masculinos ao redor do mundo – seria possível conquistar uma legião de fãs que está aí sedenta para ver futebol feminino e não sabe onde.

Mas é importante pontuar uma coisa: não adianta transmitir um torneio feminino – ainda que seja uma Copa do Mundo – e não falar dele nunca na programação. Não divulgar o horário do jogo, não falar sobre o torneio em nenhum programa ou nem mesmo no noticiário, não citar por um segundo sequer que “estamos transmitindo um torneio de futebol feminino”. A lógica é simples: se nem a própria emissora, a (con)federação, o clube quiserem vender seu próprio produto, ninguém vai querer comprá-lo ou ter qualquer interesse nele.

Fonte: UOL