Eleições 2018, Política

Bolsonaro nas Terras do Rei Lula

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Com ou sem Lula na disputa, é no Nordeste que Jair Bolsonaro marca seu pior desempenho nas paradas de sucesso eleitoral, uns 8%, segundo o Datafolha do fim de janeiro, o mais recente. Na prática, empata com Geraldo Alckmin. Lula leva cerca de 60% dos votos nordestinos.

Em Garanhuns, terra de Lula, que lhe deu 90% dos votos no segundo turno de 2006, o povo nas ruas reage com um franzir de olhos, uma expressão turva de desconhecimento, ao ouvir o nome de Alckmin. Na pesquisa espontânea do Datafolha, o tucano paulista não chega a 1% das menções dos eleitores nordestinos.

Bolsonaro é outra história, mesmo pouco votado. O capitão da extrema direita era citado em quase metade dos discursos da manifestação de repúdio à prisão de Lula, na tarde de sexta-feira (6), em Garanhuns. Um homem cruel, violento. Que não  fala do povo pobre, que desrespeita as mulheres e os seres humanos em geral. Uma desgraça que não  deveria levar o voto nordestino.

Os oradores eram do PT e sindicalistas rurais, gente de prefeituras da região, de movimentos sociais e estudantis. Falavam mal da “mídia” , do Supremo, do “governo usurpador” de Michel Temer, instrumentos da elite odienta. Mas Bolsonaro não entrava nesse balaio.

Esses militantes não têm lá muita relevância política. Lula é rei em Garanhuns e entorno, mas o PT jamais elegeu prefeito aqui e não tem vereadores. O prefeito da cidade é do PTB, e seu líder na Câmara é um  vereador do PC do B, que por sua vez negocia apoio a Marília Arraes (PT) na campanha pelo governo estadual.

Entre essa esquerda municipal e entre o povo das ruas, porém, Bolsonaro suscita interesse. Políticos locais dizem que o grupo de apoio do capitão é “mínimo” , mas colocou um outdoor de campanha nos arredores da cidade, como tantos que aparecem pelos interiores rurais do Brasil.

Diante das questões deste jornalista sobre Bolsonaro, o povo não raro devolve a pergunta, curioso e desconfiado: “Você acha que ele pode ganhar?” . Afora no caso de Lula e, um tanto, de Ciro Gomes (PDT), os demais candidatos causam indiferença, desprezo tranquilo.

Garanhuns é uma cidade comercial. Caetés, seu distrito elevado a município em 1963, onde Lula nasceu, uma terra de pequenos agricultores muito pobres. Nas duas, porém, Previdência Rural e Bolsa Família pesam tanto na renda que o comércio gira com força entre os dias 30 e 10, quando são pagos os benefícios, dizem os locais. Não é surpresa, assim como a ojeriza, se não raiva, quando se fala de reforma da Previdência.

As pessoas perguntam se “esse Bolsonaro” , assim como Michel Temer, também quer acabar com o salário mínimo e a Previdência, objetos de respeito tão grande quanto as realizações do governo Lula para o povo das ruas daqui. São assuntos de vida e morte, de vida ou miséria, que causam emoção e indignação, intensas como essas raivas epidérmicas de redes insociáveis, mas encarnadas, profundas, o que é evidente em gestos, tom de voz e expressões da gente comum que discute esses temas.

Bolsonaro não perturba assim os humores, mas parece intrigar essas pessoas que não votam nele, tido como alguém à parte do mundo da política conhecida. Não leva os votos daqui, mas se tornou um assunto.

Fonte: UOL – Vinícius Torres Freire